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Ladrões que roubam ladrões

Com o pequeno crime é usado para esconder a grande criminalidade.

Observando as notícias e ouvindo continuamente falar num “sentimento de insegurança”, é impossível ignorar o verdadeiro salto de qualidade dado ao nível da criminali­dade nos últimos anos. Numa altura em que se ouve dizer que os trabalhadores portugueses têm a mais baixa produ­tividade da Europa e em que o governo faz apelos para um esforço nacional de qualificação e modernização, pare­ce estranho que não se registe com apreço a crescente com­petitividade internacional da indústria portuguesa do crime. Sequestros, explosivos em carrinhas de valores, rou­bo de caixas multibanco em tribunais, assaltos a bancos e ourivesarias, extorsão a empresários da noite, etc. Tudo isto requer elevados graus de qualificação e especializa­ção, uma estratégia audaciosa, métodos inovadores, senti­do empreendedor, trabalho em equipa e disponibilidade para o risco – afinal as receitas de sucesso recomendadas por todos os manuais de gestão moderna.violencia_policial

Além disso, quem assalta bancos demonstra um inques­tionável conhecimento, não apenas de seculares tradições his­tóricas de exproprio e saqueio, mas também das dinâmi­cas dominantes da economia portuguesa nos últimos anos, nomeadamente as elevadas taxas de lucro da banca. Ao ir bus­car o dinheiro lá onde ele se encontra e até nem é tão ne­cessário, os “criminosos” ensaiam uma resposta à crise social. Emigrar, trabalhar num call center ou dar o grande gol­pe? Bem se vê que nem toda a gente tem uma boa dicção e que tirar cafés na Holanda não é propriamente um pro­jecto de vida (já para não falar do trabalho clandestino na construção civil em Espanha, actividade bem mais perigosa do que roubar bancos). Para quê lutar pelo direito ao em­prego e estar sujeito a levar uma bastonada da GNR ou da PSP à porta da fábrica encerrada ilegalmente, quando se pode entrar de arma na mão e cara tapada num banco e le­var tudo aquilo de que se precisa? E se nos lembrarmos de que no Norte do país, onde o desemprego alastra, há quem ponha os filhos menores a trabalhar ou quem se pros­titua para sobreviver, como estranhar que os pobres pre­firam ir roubar ourivesarias?

Quem não é banqueiro só pode ficar contente por esta viragem do assalto na rua para o assalto ao banco. Eis um exem­plo de como a modernização traz frutos que funcio­nam no interesse de todos — ninguém arranja uma arma de fogo para pilhar galinhas ou roubar trocos. Nesse senti­do, este “choque tecnológico” a que os jornalistas chamam “o novo crime” denota uma elevada sensibilidade social, quando não mesmo uma profunda consciência de classe. A família Espírito Santo tem um bom fundo de maneio e uma seguradora para lhe dar tranquilidade. Eu, por exem­plo, disponho apenas de uma carteira mal recheada e do te­le­móvel mais barato do mercado. Assim sendo, espero atentamente pelo próximo grande golpe e atrevo-me desde já a dizer que gostaria que fosse num casino (qualquer um dos 10 serve). Até lá, aposto tudo no vermelho.
De Kaos en la red

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